Alergia em Foco VACINAÇÃO CONTRA HPV NO SEXO MASCULINO


ago

13

2015

VACINAÇÃO CONTRA HPV NO SEXO MASCULINO

Por Dr. Guido Levi.
Hoje em dia já está bem estabelecida a importância da vacina contra o vírus do papiloma humano (VPH ou HPV, do inglês “Human Papiloma Vírus”) para o sexo feminino e muitos países já têm programas de vacinação universal de mulheres, a partir dos nove anos de idade. Começa agora, a discussão em torno da utilização da mesma vacina para indivíduos do sexo masculino.
Alguns dados devem ser levados em conta na avaliação do por que vacinar homens.

Vacinação contra HPV em sexo masculino Por que?

 630 milhões de homens infectados versus 370 milhões de mulheres
 Sexo masculino apresenta resposta imune menos intensa e com títulos anticórpicos menores após infecção natural
 Maior prevalência e menor incidência da doença em homens
 Menor morbimortalidade. Maioria das infecções assintomáticas
No entanto, mesmo acompanhado em homens de menor morbimortalidade, o HPV pode causar doenças que vão desde o desagradável, como o condiloma acuminado, até o muito grave, como os cânceres de pênis, anus e orofaringe. A vacinação do sexo masculino, além da prevenção dessas patologias, traz o benefício de reduzir o reservatório masculino do vírus, e essa diminuição de prevalência seria útil para reduzir o risco de cancer cervical em mulheres. Em relação às verrugas genitais, que acometem mais que 10% dos homens, cerca de 90% são causadas pelos HPV 6 e 11. Embora, às vezes, sejam somente incômodas, podem ser dolorosas, difíceis de tratar e com frequentes recorrências – até 30%. Em estudo realizado na Austrália, no período de 2004 a 2010, em oito serviços de saúde sexual, Donovan encontrou em pacientes novos, 6,7% de verrugas genitais em mulheres e 9,5% em homens, o que dá bem uma idéia da frequência dessa infecção.
Quanto às doenças neoplásicas, o HPV está relacionado com câncer anal em mais de 80% dos casos, sendo o HPV16 o responsável em 66% e o HPV18 em 5%. Em relação ao carcinoma de cabeça e pescoço, dados brasileiros apontam em 30% a presença de HPV, principalmente 16, e seu encontro em 35% dos cânceres de amígdalas. Nos cânceres de pênis, 40-60% estão relacionados com a presença de HPV. Além disso, ressalta-se que esse vírus pode atuar sinergicamente com outros agentes carcinogênicos, como tabaco e álcool.
Destaque-se ainda que existem grupos especiais que apresentam risco aumentado de patologias relacionadas ao HPV, como os homens que fazem sexo com homens (HSH) e os indivíduos HIV positivos .
Vejamos, então, quais são as informações hoje disponíveis relacionadas com a vacinação do sexo masculino. Quanto à segurança e tolerância, dispomos de um estudo de Petäjä e col, incluindo 181 indivíduos de 10 a 18 anos de idade, vacinados com a vacina bivalente, e outro de Giuliano e col com 4065 indivíduos de 16 a 26 anos, que receberam o imunizante quadrivalente. Não foram verificados eventos adversos graves e reações sistêmicas foram similares às dos grupos controle. Somente a dor local foi mais intensa, porém, sempre leve a moderada. Em relação à imunogenicidade, no estudo de Petäjä e col, verificou-se 100% de soroconversão para os tipos vacinais (16 e 18), inclusive com títulos maiores que para mulheres da mesma idade. Com o preparado quadrivalente, Giuliano e col obtiveram 97,4% de soroconversão para os tipos vacinais (6, 11, 16 e 18) e, ainda, 1,5% adicional para três dos quatro sorotipos.
Na avaliação de eficácia para verrugas genitais, Giuliano e col, em indivíduos virgens de infecção e que receberam as três doses programadas, observaram 90,4 de eficácia para os quatro tipos vacinais, após três anos de controle. Vejamos agora a eficácia na prevenção do câncer anal. Aplicando três doses da vacina quadrivalente em 602 HSH sadios e com idades de 16 a 26 anos, Palefsky e col efetuaram seguimento por três anos. Seus resultados mostraram eficácia para neoplasia intraepitelial anal pelos tipos vacinais de 77,5%, e 54,9% para qualquer tipo de HPV. Além disso, constataram elevada redução – 94,9% – no risco de infecção anal persistente pelos tipos vacinais. Os autores sugerem que resultados em heterossexuais e mulheres sejam semelhantes.
Já Kreimer e col, em estudo com a vacina bivalente para prevenção de câncer cervical com 2103 mulheres de 18 a 25 anos, obtiveram espécime anal em 71% delas e em seguimento de quatro anos verificaram eficácia para câncer anal por HPV16 de 68,2% e para HPV18 de 55,5%.
Na análise custo-benefício verificou-se que quando existem altas coberturas vacinais em mulheres (mais que 80%), modelos matemáticos sugerem que a inclusão do sexo masculino em programas vacinais não é estratégia custo-benéfica para redução do impacto das doenças causadas pelo HPV, com exceção dos HSH, por ser esse um grupo de risco aumentado. Em conclusão, no presente é difícil pensar numa estratégia de vacinação universal contra o HPV,em indivíduos do sexo masculino, apesar da comprovada utilidade na prevenção de verrugas genitais e alguns tipos de câncer. Já para HSH e HIV positivos pode-se considerar haver forte indicação para a vacinação. Além disso, a vacina tem uso permitido para quem desejar ser vacinado.
No futuro, se houver redução no custo da vacina (atualmente 5 dólares/dose para países do GAVI) e se houver comprovação que menor número de doses (2, talvez até 1) possam ser igualmente eficientes, é provável que se implantem programas de vacinação universal que incluam indivíduos do sexo masculino.
Bibliografia recomendada
1.     Donovan B, Franklin N, Guy R et al. Quadrivalent human papillomavirus vaccination and trends in genital warts in Austrália: analysis of national sentinel surveillance data. Lancet Infect Dis. 2011; 11: 39-44;
2.     Giuliano AN, Palefsky JM, Goldstone S et al. Efficacy of Quadrivalent HPV Vaccine against HPV Infection and Disease in Males. N Engl J Med 2011; 364: 401-411;
3.     Kreimer AR, Clifford GM, Boyle P, Franceschi S. Human papillomavirus types in head and neck squamous cell carcinomas worldwide:  a systematic review. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev 2005; 14: 467-475;
4.     Miguel RE, Villa LL, Cordeiro AC et al. Low Prevalence of Human Papillomavirus in a Geographic Region With Incidence of Head and Neck Cancer. Am J Surg 1998; 176: 428-429;
5.     MMWR. Recommendations on the Use of Quadrivalent Human Papillomavirus Vaccine in Males – Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP), 2011. MMWR 2011, Dec; 1705-1708;
6.     Palefsky JM, Giuliano AR Goldstone S et al. HPV Vaccine against Anal HPV Infection and Anal Intraepithelial Neoplasia. N. Engl J Med 2011; 365: 1576-1585;
7.     Petäjä T, Keränen H, Karppa T el at. Immunogenicity and Safety of Human Papillomavirus (HPV) – 16/18 ASO4 – Adjuvanted Vaccine in Healthy Boys Aged 10-18 years. J Adolesc Health 2009: 44: 33-40;
8.     Snow AN & Laudadio J. Human Papillomavirus Detection in Head and Neck Squamous Cell Carcinomas. Adv Anat Pathol 2010; 17: 394-403;
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