Alergia em Foco Por que tirar nota máxima em avaliações não significa ser bom profissional


ago

24

2014

Por que tirar nota máxima em avaliações não significa ser bom profissional

Testes padronizados medem inteligência cristalizada, mas não as habilidades cognitivas.
“Será que a escola que está ajudando alunos oriundos de realidades socieconômicas menos favorecidas a melhorar o desempenho nesses testes também os está equipando com habilidades cognitivas?”
Testes padronizados são muito utilizados em vários países do mundo para medir desempenho educacional ou como forma de ingresso em instituições de ensino superior. Em muitas escolas norte-americanas, por exemplo, fazer um desses testes é obrigatório se o aluno que receber seu certificado de conclusão do ensino médio.
Geralmente, provas desse tipo apresentam questões de múltipla escolha, e não oferecem muito insight no que diz respeito a como se deu o raciocínio de quem foi testado, muito embora em alguns lugares seu resultado seja usado para prever carreira, futuro educacional e até o possível salário dos alunos que fazem a prova.
Esses testes são pensados de forma que possam mensurar de alguma maneira o que o aluno aprendeu na escola, ou que especialistas diriam ser a “inteligência cristalizada”. O que eles não medem, porém, é o que psicólogos chamam de “inteligência fluida”, a habilidade de analisar problemas abstratos e pensar logicamente, segundo estudo conduzido por neurocientistas do Instituto de Tecnologia de Massaschusetts (MIT) em parceria com estudiosos da área de educação das universidades de Harvard e Brown. A pesquisa é patrocinada pela Fundação Bill e Melinda Gates.
Trabalhando com mais de 1400 alunos da oitava série do sistema público educacional de Boston, os pesquisadores perceberam que muitas escolas conseguiram aumentar as notas dos seus alunos no teste padronizado MCAS, que mede o desempenho de alunos do estado de Massaschusetts, EUA. Nas capacidades ligadas à inteligência fluida, porém, como memória, rapidez de processamento de informações e habilidade de resolver problemas abstratos, nenhum progresso foi feito.
A questão central para os pesquisadores, ao desenvolver esses estudos, é a seguinte: será que a escola que está ajudando alunos oriundos de realidades socieconômicas menos favorecidas a melhorar o desempenho nesses testes, aumentando suas chances de conseguir uma vaga na universidade, também está equipando esses alunos com habilidades cognitivas? Essas mudanças andam juntas? A resposta é não, segundo John Gabrieli, professor de Ciências da Saúde e Tecnologia do MIT, e de Ciências Cognitivas e do Cérebro, também responsável pela pesquisa.
O que de fato os estudiosos descobriram é que as práticas destinadas a aumentar o conhecimento dos alunos e, consequentemente, suas notas, não têm nenhuma influência na inteligência fluida. Gabrieli diz que ser um bom aluno e estudar muito não é suficiente para fornecer ao estudante essas habilidades adicionais. O que é, então?
Esse estudo nasceu na tentativa de entender justamente que tipo de capacidades produzem sucesso profissional em longo prazo para os estudantes, buscando também uma forma de medí-las que não fosse o teste padronizado. Gabrieli afirma que conforme a pesquisa avançou eles perceberam que pouco se havia estudado sobre a relação entre o sucesso dos alunos e o desenvolvimento de suas habilidades cognitivas.
A análise feita com os alunos das escolas de Boston aconteceu da seguinte forma: os estudiosos mediram as melhoras no teste MCAS e identificaram o quanto a variação teve a ver com as escolas frequentadas. Na parte de Inglês as escolas corresponderam a 24% da variação, enquanto em Matemática, 34%. No teste de capacidades cognitivas fluidas, porém, apenas menos de 3% da variação tem a ver com as escolas e seus métodos – para todas as habilidades testadas.
Os pesquisadores continuarão os estudos com esses alunos, que agora estão no primeiro ano do ensino médio, para analisar sua evolução escolar. Iniciaram também uma pesquisa com estudantes no último ano do ensino médio, que buscará medir a influência das realizações acadêmicas e habilidades cognitivas durante todo o ensino superior.
A pesquisa revela, então, que as possibildades de intervenção educacional precisam ser vistas diferentemente de como são atualmente. Pensar somente no desempenho escolar e não em como isso influenciará a vida profissional ou a carreira futura pode ser um equívoco. A finalidade aqui não é criticar as escolas que estão buscando a melhora em testes padronizados, segundo Gabrieli. Essa melhora é válida e importante, mas não é a única que precisa acontecer.
A consequência que ele espera gerar com a pesquisa e seus resultados é, portanto, que os responsáveis por montar políticas educacionais consideram incluir em suas diretrizes a melhora das habilidades cognitivas. Apesar de vários estudos mostrarem que essas capacidades podem prever desempenhos acadêmicos, raramente elas são ensinadas de forma efetiva. O resultado disso muitas vezes é um aluno e futuro profissional com capacidades restritas a conhecimentos herméticos, sem habilidade de criar, inovar ou resolver com sucesso situações de estresse intelectual e emocional.
Fonte: MIT News
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