Alergia em Foco A Poluição do Ar e os Efeitos Sobre a Saúde


jun

18

2015

A Poluição do Ar e os Efeitos Sobre a Saúde

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a poluição atmosférica urbana é responsável por cerca de 1,3 milhões de mortes por ano no mundo. No Brasil, estima-se que mais de 600 mortes por causas respiratórias entre idosos ocorram anualmente como consequência direta da poluição atmosférica. Há uma relação diretamente proporcional e dose-dependente entre este tipo de poluição e a saúde cardiorrespiratória da população, cuja exposição está mais relacionada a políticas públicas nacionais e internacionais do que por características individuais. Desde 1987, a OMS tem emitido diretrizes relacionadas ao controle da poluição urbana, com atualizações periódicas à medida que o conhecimento científico cresce nesta área. De acordo com a atualização mais recente em 2005, existem quatro poluentes atmosféricos de relevância para a saúde que devem ser monitorizados: material particulado (PM), ozônio (O3), dióxido de nitrogênio (NO2) e dióxido de enxofre (SO2) (25).
         O ozônio naturalmente presente na estratosfera previne que a radiação ultravioleta (UV) de alta energia proveniente do sol penetre na atmosfera, o que poderia ameaçar a existência de uma variedade de seres vivos. Porém, o ozônio formado ao nível terrestre resulta da reação da radiação UV com óxidos de nitrogênio e hidrocarbonetos liberados por veículos automotores e por diversas fontes industriais. Este tipo de reação ocorre com mais facilidade durante dias quentes e ensolarados, justamente pela maior concentração de radiação UV. Da mesma forma, o pico atmosférico diário em ambientes urbanos ocorre entre o final da manhã e final da tarde. Os efeitos nocivos sobre a saúde são mais relevantes no sistema respiratório, desencadeando exacerbações de quadros de asma brônquica e até mesmo provocando doenças pulmonares diretamente.
            O NO2 é o componente mais estudado do grupo dos óxidos de nitrogênio, justamente por possuir propriedades poluidoras e tóxicas próprias e por participar na formação de outros poluentes como o ozônio e o material particulado. As principais fontes de NO2 estão relacionadas a processos de combustão de combustíveis fósseis, primariamente de veículos e processos industriais do ramo energético. Assim, os picos diários de concentração tendem a ocorrer nos horários de maior movimento no trânsito. A exposição a altas concentrações de NO2(>200μg/m3), mesmo por um período curto, pode causar uma grave irritação das vias aéreas, principalmente em crianças com histórico de hiper-reatividade. Os efeitos em longo prazo também podem resultar em piora do controle clínico da asma, além da restrição do desenvolvimento da função pulmonar em crianças.
         O SO2 é um gás incolor e com um odor característico produzido especialmente pela queima de combustíveis fósseis e fundição de minérios. Em humanos, o SO2 é nocivo ao sistema respiratório e extremamente irritante para a mucosa ocular. Diversos trabalhos realizados em locais diferentes como Hong Kong, Canadá e Estados Unidos encontraram uma relação diretamente proporcional entre os níveis de SO2 ao longo de 24h e a mortalidade diária na região de estudo. Mesmo exposições de curta duração (até 10 minutos) a este gás podem provocar alterações na função pulmonar e crises de broncoespasmo em indivíduos predispostos. Neste contexto, a inflamação resultante nas vias aéreas pode desencadear ainda crises de tosse, aumento na produção de muco, e predispor a descompensações infecciosas. Já foi descrita também elevações nos percentuais de admissões hospitalares por doenças cardiovasculares (DC) relacionadas a concentrações atmosféricas mais altas de SO2. Este poluente também apresenta grande potencial nocivo ao meio ambiente por estar envolvido na formação de chuva ácida, uma vez que sua solubilidade em água é elevada.
            Apesar dos três gases citados anteriormente serem importantes no contexto da poluição atmosférica e saúde pública, o material particulado (MP) é o que apresenta maior relevância por afetar uma maior quantidade de pessoas do que os outros. Ele consiste de uma mistura de substâncias líquidas e sólidas de origem orgânica e inorgânica suspensas no ar como sulfato, nitratos, amônia, cloreto de sódio, carbono, resíduos minerais e água. O tamanho e os tipos de partículas variam ao longo do tempo numa mesma região, pois depende da emissão primária de alguns componentes e também da formação secundária de gases a partir da emissão de outras substâncias. Assim, por causa desta complexidade relacionada à sua composição, as partículas são identificadas de acordo com o seu diâmetro. Desde 1987, as partículas com menos de 10μm (MP10) têm sido monitoradas por serem capazes de penetrar a árvore brônquica. Após 1997, aquelas com menos de 2,5μm (MP2,5) também passaram a ser acompanhadas separadamente pela “United States Environmental Protection Agency” (EPA) por potencialmente alcançarem as vias áreas de menor calibre. As principais fontes de MP são emissões de veículos automotores, a fragmentação de pneus e reutilização na formação de asfalto, combustões relacionadas à indústria de energia, processamento de minérios, agricultura, atividades de construção e demolição, queimadas florestais e erupções vulcânicas, entre outros. De uma forma geral o MP2,5 é gerado primariamente após processos de combustão enquanto o MP10 é oriundo de fontes naturais. Mais recentemente as partículas ultrafinas (menores que 0,1μm) também estão sendo estudadas por sua maior toxicidade, relacionada à capacidade de chegar à corrente sanguínea.
As evidências na literatura relacionadas aos efeitos nocivos do MP sobre a saúde humana são extensas. A exposição em longo prazo está relacionada a danos aos sistemas respiratório e cardiovascular, além de aumentar o risco de câncer de pulmão. Do mesmo modo, o aumento da mortalidade total associado ao MP está bem estabelecido e ocorre de maneira independente a outros fatores de risco. Esta relação já está ocorrendo em níveis de poluição atualmente documentados em diversas cidades do mundo.
Além dos efeitos sobre a mortalidade, o MP está associado a maiores riscos de eventos cardiovasculares não fatais e admissões hospitalares por DC, embora esta relação seja menos robusta. Outros trabalhos mostraram ainda que exposições de curta duração a altas concentrações de MP em regiões com grande movimentação de veículos também podem aumentar o risco de infarto do miocárdio. Nestes casos, o risco já começa a aumentar poucas horas após a exposição, e parece ser maior em indivíduos com história de doença coronariana estabelecida. Outras condições também relacionadas à exposição ao MP incluem admissões hospitalares por insuficiência cardíaca, eventos cerebrovasculares, doença vascular periférica, trombose venosa profunda, arritmias cardíacas e morte súbita.
            De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 1995 e 2008 as concentrações anuais máximas e médias dos principais poluentes atmosféricos permaneceram estáveis ou caíram na maioria das regiões metropolitanas do Brasil. Esta tendência foi mais expressiva em relação ao MP10 e menos evidente em relação ao O3, que até mesmo aumentou em algumas cidades como Belo Horizonte. Apesar disso, em 2009 o Rio de Janeiro foi a cidade com a maior concentração média de MP10 no país (64μg/m3), inclusive registrando um aumento de 28% em relação ao ano anterior. Outras cidades como São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte registraram quedas neste parâmetro entre estes dois anos. Entretanto, entre estas cidades apenas Belo Horizonte não ultrapassou o limite médio anual de 20μg/m3 estabelecido pela OMS.   
  Colaboração: Dr. Roberto Muniz Ferreira (CRM: 5278087-1)
Fonte: https://www.fapes.com.br/portal/main.jsp?lumPageId=48161FF7343FE567013466204FD948AD&lumItemId=8A83EAE63F17E50A013F197E57BC239B
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